Grid Zero: Guia Completo sobre Controle de Exportação de Energia Solar (Parte 2)


A tecnologia por trás do controle inteligente da geração distribuída

No primeiro artigo desta série entendemos por que o controle de exportação passou a ser necessário. Vimos como o crescimento acelerado da geração distribuída no Brasil criou desafios reais para a infraestrutura elétrica das concessionárias — inversão de fluxo, elevação de tensão, saturação de alimentadores — e como o conceito de Grid Zero surgiu como resposta técnica a essas limitações.

Agora chegou o momento de conhecer a tecnologia que torna isso possível.

Este segundo artigo apresenta o controlador responsável por gerenciar a usina solar em tempo real: o PPC-GD. Vamos entender sua arquitetura, seus algoritmos de controle, como ele se comunica com os inversores, por que a compatibilidade multimarca importa, e como essa plataforma vai muito além do simples controle de exportação zero.

Se o primeiro artigo respondeu à pergunta “por que precisamos do Grid Zero?”, este responde à pergunta “como ele funciona por dentro?”.


Além do Grid Zero: o controle inteligente da usina

O controle de exportação é apenas uma das funções necessárias para operar uma usina moderna de geração distribuída.

À medida que as exigências técnicas das distribuidoras aumentam e os projetos crescem em complexidade, torna-se necessário controlar não apenas a potência ativa exportada, mas também a potência reativa, o fator de potência, a tensão no ponto de conexão e a integração com sistemas de supervisão e armazenamento de energia.

Em usinas de grande porte conectadas ao Sistema Interligado Nacional (SIN), esse papel é desempenhado por um equipamento conhecido como Power Plant Controller — o controlador de usina.

Na geração distribuída, o mesmo conceito se aplica, adaptado à realidade das redes de baixa e média tensão e às normas técnicas das distribuidoras locais.

É nesse contexto que surge o PPC-GD.


O que é um PPC-GD?

PPC-GD significa Power Plant Controller para Geração Distribuída.

É o controlador central da usina solar. Ele recebe as medições do ponto de conexão com a rede, processa essas informações em tempo real e envia comandos individuais a cada inversor para manter a operação dentro dos limites técnicos definidos.

Em um sistema fotovoltaico sem controlador, cada inversor opera de forma independente. Ele converte a energia dos módulos e injeta na rede interna da instalação sem considerar o que está acontecendo no ponto de conexão com a concessionária.

Com um PPC-GD, a usina passa a operar como um sistema coordenado. O controlador enxerga o fluxo de potência no ponto de conexão e ajusta cada inversor individualmente, garantindo que o comportamento agregado da usina atenda às condições exigidas.

Em termos simples: sem o PPC-GD, cada inversor toma suas próprias decisões. Com o PPC-GD, a usina inteira responde como uma unidade.

Funções típicas de um PPC-GD

Um PPC-GD pode executar diversas funções de controle, dependendo da configuração e das exigências do projeto. As mais comuns são:

  • Controle de exportação zero — impedir que qualquer potência ativa seja injetada na rede da distribuidora;
  • Limitação de exportação — permitir a exportação até um valor máximo definido (setpoint em kW);
  • Controle de potência reativa — fornecer ou absorver potência reativa conforme necessidade da rede;
  • Controle de fator de potência — manter o fator de potência da instalação dentro dos limites normativos;
  • Proteção direcional de potência — função ANSI 32, que bloqueia o fluxo reverso de potência em direção à rede;
  • Comportamento fail-safe — cessar automaticamente a geração em caso de falha de comunicação ou perda de medição;
  • Integração com SCADA — disponibilizar dados operacionais para sistemas supervisórios externos.

O controle de exportação zero — o Grid Zero — é, portanto, apenas um dos modos de operação do PPC-GD. É o mais conhecido e o mais solicitado pelas distribuidoras brasileiras, mas não é o único.


O SCRPI como função do PPC-GD

SCRPI é a sigla utilizada por diversas distribuidoras brasileiras para designar o Sistema de Controle de Redução de Potência do Inversor.

Nas normas técnicas de conexão, o SCRPI aparece como o subsistema responsável por garantir que a usina não injete potência ativa na rede da concessionária. Ele deve monitorar o ponto de conexão continuamente e, caso identifique tendência de exportação, deve reduzir automaticamente a potência dos inversores até que a condição seja eliminada.

Na arquitetura da HACON, o SCRPI é um subconjunto do PPC-GD.

Isso significa que o PPC-GD da HACON não é apenas um sistema de exportação zero. Ele é uma plataforma de controle de usina que inclui o SCRPI como uma de suas funções — exatamente aquela que as distribuidoras exigem para homologação.

Essa distinção é importante porque, na prática, muitos projetos precisam de mais do que simplesmente impedir a exportação. Precisam de controle de potência reativa, monitoramento de grandezas elétricas, integração com sistemas de supervisão e proteção direcional. Tudo isso está dentro do PPC-GD.


Arquitetura do sistema

A arquitetura de um sistema de controle de exportação baseado em PPC-GD pode ser descrita em três camadas: medição, processamento e atuação.

Camada de medição

O PPC-GD precisa saber o que está acontecendo no ponto de conexão da instalação com a rede da concessionária. Para isso, utiliza um medidor de energia (ME) instalado no PCC.

Esse medidor captura as seguintes grandezas elétricas, por fase e total:

  • Tensão (fase-neutro e fase-fase);
  • Corrente;
  • Potência ativa (kW);
  • Potência reativa (kVAr);
  • Potência aparente (kVA);
  • Fator de potência;
  • Energia acumulada (kWh e kVArh).

Em instalações de baixa tensão (BT), a medição é feita por meio de transformadores de corrente (TCs) instalados diretamente no ponto de conexão.

Em instalações de média tensão (MT), a medição é realizada na cabine de medição, utilizando transformadores de potencial (TPs) e transformadores de corrente (TCs) de média tensão.

Essa diferença é relevante porque nem todos os controladores disponíveis no mercado suportam ambas as configurações. O PPC-GD da HACON opera tanto em BT quanto em MT, o que o torna aplicável a qualquer porte de usina de geração distribuída.

Camada de processamento

O controlador recebe os dados do medidor de energia e executa o algoritmo de controle. Em cada ciclo de processamento, ele calcula o comando que deve ser enviado a cada inversor para manter o fluxo de potência dentro dos limites definidos.

O processamento leva em conta:

  • O valor instantâneo de potência ativa no PCC;
  • A direção do fluxo (consumo ou exportação);
  • A capacidade individual de cada inversor conectado;
  • O tempo de resposta do sistema;
  • Os limites de segurança (margens de proteção contra exportação transitória);
  • Os parâmetros definidos no memorial descritivo do projeto.

Camada de atuação

Após calcular os comandos, o controlador envia ordens individuais a cada inversor conectado ao sistema. Essas ordens definem o limite de potência ativa que cada inversor pode produzir naquele instante.

Os inversores recebem os comandos e ajustam sua geração de acordo.

Esse processo se repete continuamente, diversas vezes por minuto, mantendo a operação da usina dentro dos parâmetros definidos.


Comunicação: como o controlador conversa com os inversores

A comunicação entre o PPC-GD e os inversores é um dos aspectos mais críticos do sistema. Se o controlador não consegue enviar comandos ou receber informações dos inversores, o controle de exportação simplesmente não funciona.

O protocolo Modbus

O protocolo mais utilizado em sistemas de controle de usinas fotovoltaicas é o Modbus, um padrão industrial amplamente adotado em automação e controle de processos.

O Modbus define como os dados são organizados e transmitidos entre dispositivos. Existem duas variantes principais utilizadas em PPC-GD:

Modbus RTU (Remote Terminal Unit) Utilizado na comunicação entre o PPC-GD e os inversores. A transmissão é feita por meio de cabos RS485, que permitem a conexão de múltiplos dispositivos em um mesmo barramento serial. É uma comunicação do tipo mestre-escravo: o controlador (mestre) envia comandos e os inversores (escravos) respondem.

Modbus TCP Utilizado na comunicação entre o PPC-GD e sistemas de supervisão (SCADA). A transmissão é feita por meio de rede Ethernet (TCP/IP), o que permite integração com sistemas de monitoramento remoto.

RS485: o barramento físico

O RS485 é o meio físico pelo qual os dados Modbus RTU trafegam. Suas principais características são:

  • Suporte a longas distâncias (até 1.200 metros por segmento);
  • Conexão de múltiplos dispositivos no mesmo par de fios;
  • Alta imunidade a ruído eletromagnético, fundamental em ambientes industriais e usinas solares;
  • Baixo custo de implementação.

Na prática, o PPC-GD se conecta a todos os inversores por meio de um barramento RS485. Cada inversor recebe um endereço único no barramento, permitindo que o controlador envie comandos individuais a cada equipamento.

O desafio da comunicação multimarca

Embora o protocolo Modbus seja um padrão, cada fabricante de inversor implementa seus registradores Modbus de forma diferente.

Isso significa que o comando para limitar a potência de um inversor de uma marca pode ser completamente diferente do comando equivalente para outra marca.

Por exemplo:

  • Um fabricante pode usar o registrador 40083 para definir o limite de potência ativa em watts;
  • Outro fabricante pode usar o registrador 50003 para definir o mesmo limite, mas em porcentagem da potência nominal;
  • Um terceiro pode exigir que dois registradores sejam escritos simultaneamente: um para habilitar o modo de limitação e outro para definir o valor.

Para que um controlador seja verdadeiramente multimarca, ele precisa conhecer o mapa de registradores Modbus de cada fabricante suportado e saber como cada inversor espera receber e interpretar os comandos.

O PPC-GD da HACON é independente de marca. Ele suporta qualquer fabricante de inversor que possua interface Modbus RTU, e permite que marcas e modelos diferentes convivam no mesmo sistema, conectados ao mesmo barramento RS485.

Essa capacidade é fundamental em usinas reais, onde é comum encontrar inversores de fabricantes diferentes — seja por escolha do projeto, por disponibilidade de mercado ou por ampliações realizadas em momentos distintos.


Algoritmos de controle

O algoritmo de controle é a lógica que o PPC-GD executa para decidir, a cada instante, quanto cada inversor deve produzir.

O problema de controle

O objetivo do algoritmo é simples de enunciar: manter a potência ativa no ponto de conexão em zero (ou abaixo de um setpoint definido), sem desperdiçar geração solar desnecessariamente.

Na prática, isso é mais complexo do que parece, porque:

  • O consumo da instalação varia continuamente;
  • A irradiação solar muda com nuvens, ângulo do sol e sombreamento;
  • A comunicação com os inversores não é instantânea — existe um tempo de ida e volta (round-trip) para cada comando;
  • Os inversores não respondem imediatamente ao comando — existe um tempo de rampa;
  • Em sistemas com muitos inversores, o controlador precisa decidir como distribuir a redução entre eles.

Um controlador que simplesmente desligue inversores quando detecta exportação desperdiça energia e causa oscilações indesejáveis. Um controlador bem projetado modula a potência de forma suave, contínua e proporcional, maximizando o aproveitamento solar enquanto mantém a exportação em zero.

Controle proporcional-integral (PI)

A maioria dos controladores de usina utiliza alguma variação de controle proporcional-integral, conhecido como controle PI.

O princípio é o seguinte:

Componente proporcional (P): A correção aplicada é proporcional ao erro atual. Se a usina está exportando 10 kW, o controlador reduz a geração proporcionalmente a esse valor. Quanto maior o erro, maior a correção.

Componente integral (I): Acumula o erro ao longo do tempo. Se após a correção proporcional ainda restar um pequeno erro residual (por exemplo, a usina ainda exporta 0,5 kW), o componente integral vai aumentando progressivamente a correção até eliminar esse erro.

A combinação dos dois componentes permite que o sistema responda rapidamente a variações bruscas (via P) e elimine erros residuais em regime permanente (via I).

Os parâmetros do controlador PI (ganho proporcional e ganho integral) precisam ser ajustados para cada instalação, considerando o tempo de resposta dos inversores, o perfil de carga da instalação e a dinâmica do sistema.

Distribuição de potência entre inversores

Em usinas com múltiplos inversores, o controlador precisa decidir como distribuir a redução de potência quando é necessário limitar a geração.

Existem diferentes estratégias possíveis:

Distribuição proporcional: Cada inversor reduz sua potência na mesma proporção. Se a usina precisa reduzir 20% da geração total, cada inversor reduz 20% de sua capacidade individual.

Distribuição por prioridade: Alguns inversores são reduzidos antes de outros. Isso pode ser útil quando existem inversores com diferentes eficiências ou quando se deseja priorizar determinados strings fotovoltaicos.

Distribuição sequencial: Um inversor é reduzido até o mínimo antes de começar a reduzir o próximo. Essa estratégia é menos comum porque pode causar desgaste desigual nos equipamentos.

O PPC-GD da HACON gerencia até 30 inversores simultaneamente, aplicando comandos individuais a cada um deles. A estratégia de distribuição é configurável de acordo com as necessidades do projeto.


Controle de potência ativa

A potência ativa é a grandeza que efetivamente realiza trabalho. É medida em watts (W) ou quilowatts (kW) e é o que normalmente associamos ao consumo de energia elétrica.

No contexto do Grid Zero, o controle de potência ativa é a função primária do PPC-GD. O objetivo é garantir que a potência ativa líquida no ponto de conexão seja sempre maior ou igual a zero — ou seja, que a instalação esteja sempre consumindo da rede ou em equilíbrio, nunca exportando.

O controlador mede a potência ativa no PCC a cada ciclo de processamento. Se detecta que o valor está se aproximando de zero no sentido de exportação, começa a reduzir a geração dos inversores. Se detecta que há margem para aumentar a geração (porque o consumo aumentou), permite que os inversores produzam mais.

Esse controle precisa ser rápido o suficiente para acompanhar variações bruscas de carga. Uma máquina industrial que é desligada instantaneamente pode liberar dezenas de quilowatts que, sem controle, seriam exportados para a rede.


Controle de potência reativa

A potência reativa é a componente da potência elétrica que não realiza trabalho útil, mas é necessária para manter os campos magnéticos de motores, transformadores e outros equipamentos indutivos. É medida em volt-ampères reativos (VAr) ou quilovolt-ampères reativos (kVAr).

Embora o Grid Zero esteja primariamente associado ao controle de potência ativa, muitas distribuidoras também impõem requisitos sobre a potência reativa da instalação.

Os inversores fotovoltaicos modernos são capazes de injetar ou absorver potência reativa, dentro de determinados limites. O PPC-GD pode utilizar essa capacidade para controlar o fator de potência da instalação no ponto de conexão.

Algumas situações onde o controle de potência reativa é relevante:

  • A distribuidora exige que a instalação mantenha fator de potência acima de 0,92 (indutivo ou capacitivo);
  • Motores e equipamentos indutivos da instalação consomem grandes quantidades de potência reativa, e os inversores podem compensar parcialmente essa demanda;
  • A norma técnica da distribuidora exige que o PPC-GD demonstre capacidade de controle de potência reativa durante os testes de comissionamento.

Controle de fator de potência

O fator de potência (FP) é a relação entre a potência ativa e a potência aparente. Em termos simples, indica o quanto da energia fornecida está efetivamente sendo utilizada para realizar trabalho.

Um fator de potência unitário (FP = 1) significa que toda a corrente circulante está realizando trabalho útil. Um fator de potência baixo (por exemplo, FP = 0,7) indica que parte significativa da corrente circulante está sustentando campos magnéticos sem contribuir para o trabalho realizado.

As distribuidoras brasileiras geralmente exigem que as unidades consumidoras mantenham o fator de potência acima de 0,92. Valores abaixo desse limite podem resultar em cobranças adicionais por energia reativa excedente.

O PPC-GD pode ser configurado para monitorar e controlar o fator de potência no ponto de conexão, utilizando a capacidade dos inversores de fornecer ou absorver potência reativa. Isso permite que a usina solar contribua para a correção do fator de potência da instalação, em vez de apenas produzir potência ativa.


Gerenciamento de múltiplos inversores e marcas

Uma usina solar de geração distribuída pode utilizar um único inversor ou dezenas deles. Em projetos maiores, é comum encontrar inversores de diferentes fabricantes, modelos e potências na mesma instalação.

Isso acontece por diversas razões:

  • Ampliações da usina realizadas em momentos diferentes, quando a disponibilidade de equipamentos no mercado era diferente;
  • Substituição de inversores que falharam por modelos de outro fabricante;
  • Projetos que combinam inversores de string com inversores centralizados;
  • Otimização de custo, utilizando os equipamentos com melhor relação custo-benefício disponíveis no momento.

Para o controlador de exportação, essa diversidade representa um desafio técnico significativo. Cada marca de inversor utiliza registradores Modbus diferentes, aceita formatos de dados diferentes e responde a comandos de formas diferentes.

Um controlador que suporta apenas uma marca de inversor limita as opções do integrador solar. Se o inversor previsto no projeto não estiver disponível, será necessário trocar o controlador — ou aceitar inversores mais caros apenas por questão de compatibilidade.

O PPC-GD da HACON resolve esse problema sendo independente de marca. Ele gerencia até 30 inversores de qualquer fabricante, inclusive com marcas e modelos diferentes convivendo no mesmo barramento RS485. O integrador escolhe os inversores com base no mérito técnico e comercial, sem restrição imposta pelo controlador.


Integração com SCADA

SCADA (Supervisory Control and Data Acquisition) é um sistema de supervisão e controle utilizado para monitorar processos industriais em tempo real.

Em usinas de geração distribuída, a integração com SCADA permite:

  • Visualizar remotamente a operação da usina (potência gerada, consumo, estado dos inversores);
  • Registrar históricos de operação para análise de desempenho;
  • Configurar alarmes para condições anormais (falha de comunicação, exportação detectada, inversor offline);
  • Alterar parâmetros de operação remotamente (setpoints, modos de controle);
  • Gerar relatórios de produção e de eventos.

O PPC-GD da HACON disponibiliza seus dados operacionais por meio de Modbus TCP via Ethernet, permitindo a integração com qualquer sistema SCADA compatível.

Essa integração é particularmente importante em usinas de médio e grande porte, onde a operação e manutenção (O&M) são realizadas por equipes especializadas que precisam de visibilidade remota da operação.

Para consumidores do Mercado Livre de Energia (ACL), a integração com SCADA oferece um benefício adicional: a capacidade de demonstrar à distribuidora e à CCEE que a usina opera continuamente em conformidade com as condições de autoprodução sem injeção na rede.


Armazenamento de energia (BESS) e o futuro do controle

Embora o Grid Zero resolva o problema da exportação de energia, ele tem uma limitação inerente: quando a geração excede o consumo, a potência dos inversores é reduzida, e parte da energia solar disponível é desperdiçada.

Em um sistema com armazenamento de energia por baterias — conhecido como BESS (Battery Energy Storage System) — essa energia excedente pode ser armazenada em vez de desperdiçada.

A lógica passa a ser:

  1. A usina solar gera energia;
  2. O consumo da instalação é atendido prioritariamente;
  3. Se há excedente, a energia é direcionada para as baterias;
  4. Se as baterias estão carregadas e ainda há excedente, aí sim os inversores são limitados;
  5. Quando a geração solar cai (final do dia, nuvens), as baterias fornecem energia para a instalação.

A integração de BESS ao PPC-GD representa a evolução natural do controle de usinas de geração distribuída. O controlador passa a gerenciar não apenas os inversores solares, mas também o sistema de armazenamento, otimizando o aproveitamento da energia solar ao longo do dia.

Essa tendência já é realidade em diversos mercados internacionais e começa a ganhar relevância no Brasil, especialmente em instalações do Mercado Livre de Energia onde a previsibilidade de consumo e a gestão energética são fatores críticos.


Caso real: usina de 550 kW em média tensão

Para ilustrar a aplicação prática de tudo o que foi apresentado, considere o seguinte cenário real de uma usina operando com o PPC-GD da HACON.

Configuração da usina:

  • Potência instalada: 550 kWp;
  • Conexão: média tensão;
  • Inversores: 20 unidades, de marcas e modelos distintos;
  • Modo de operação: exportação zero;
  • Controlador: PPC-GD com SCRPI;
  • Medição: TPs e TCs de média tensão na cabine de medição;
  • Comunicação: RS485 / Modbus RTU para inversores, Ethernet / Modbus TCP para supervisão.

Operação típica: Durante o dia, o consumo da instalação varia entre 200 kW e 500 kW, dependendo do processo produtivo. A usina solar gera até 550 kW nos horários de pico de irradiação.

Nos momentos em que o consumo está alto (acima de 500 kW), todos os 20 inversores operam na capacidade máxima e a instalação complementa o restante com energia da rede.

Nos momentos em que o consumo cai (por exemplo, durante o almoço, quando cai para 250 kW), o PPC-GD reduz automaticamente a geração dos inversores para acompanhar o consumo. Os 20 inversores são modulados individualmente, cada um recebendo um setpoint de potência calculado pelo algoritmo de controle.

Se ocorre uma variação brusca de carga — uma máquina grande é desligada, por exemplo — o controlador detecta a mudança pela medição no PCC e envia comandos de redução aos inversores em tempo real, antes que ocorra exportação significativa.

Resultado: A usina opera continuamente em modo de exportação zero, aproveitando toda a geração solar para autoconsumo, sem injetar potência na rede da distribuidora. A homologação junto à concessionária foi realizada com base na comprovação de não injeção fornecida pelo PPC-GD.


Diferença entre controle pelo inversor e controle por PPC-GD

Alguns inversores possuem funções internas de limitação de potência. Em usinas menores, com um único inversor, essa abordagem pode ser suficiente.

Porém, em usinas com múltiplos inversores, o controle individual de cada equipamento apresenta limitações:

Controle interno do inversor:

  • Cada inversor atua independentemente;
  • Não há coordenação entre inversores;
  • A medição é feita no próprio inversor, não no ponto de conexão;
  • Funciona bem com um ou poucos inversores da mesma marca;
  • Limitado ao protocolo e às funcionalidades daquele fabricante específico.

Controle por PPC-GD:

  • O controlador coordena todos os inversores como um sistema;
  • A medição é feita no ponto de conexão (PCC), onde importa;
  • Suporta múltiplas marcas e modelos no mesmo sistema;
  • Oferece proteção direcional (ANSI 32), controle de reativo e integração SCADA;
  • Comportamento fail-safe centralizado;
  • Atende às exigências de homologação das distribuidoras para sistemas com SCRPI dedicado.

Na prática, à medida que a usina cresce em porte e complexidade, o controle por PPC-GD dedicado torna-se não apenas preferível, mas necessário.


Conclusão

O controle de exportação zero é a porta de entrada para o controle inteligente da geração distribuída.

Mas, como vimos ao longo deste artigo, a tecnologia que garante a exportação zero na prática é muito mais do que um simples “bloqueio de injeção”. É um sistema de controle coordenado, com medição de referência no ponto de conexão, algoritmos de controle em tempo real, comunicação determinística com os inversores e múltiplas camadas de segurança.

O PPC-GD é a plataforma que integra tudo isso. O SCRPI é a função de exportação zero dentro dessa plataforma. O Grid Zero é o resultado operacional que o integrador e o consumidor enxergam.

Entender essa hierarquia é importante porque as exigências técnicas continuam aumentando. Projetos que hoje precisam apenas de exportação zero podem, amanhã, precisar de controle de potência reativa, integração com armazenamento ou ajuste dinâmico de fator de potência. Um controlador que já nasceu como plataforma está preparado para essas evoluções.

No próximo artigo desta série, abordaremos a aplicação prática e a regulamentação do Grid Zero no Brasil. Veremos como funciona o processo de homologação junto às distribuidoras, quais documentos são necessários, como é o comissionamento em campo e qual o papel da REN 1.000 da ANEEL nesse contexto. Também apresentaremos um checklist prático para integradores solares que precisam entregar projetos de exportação zero.


Glossário

TermoDefinição
PPC-GDPower Plant Controller para Geração Distribuída — controlador central da usina solar
SCRPISistema de Controle de Redução de Potência do Inversor — função de exportação zero dentro do PPC-GD
PCCPonto de Conexão — local onde a instalação do consumidor se conecta à rede da distribuidora
MEMedidor de Energia — dispositivo que captura as grandezas elétricas no PCC
Modbus RTUProtocolo de comunicação serial utilizado entre o PPC-GD e os inversores
Modbus TCPProtocolo de comunicação via rede Ethernet utilizado para integração SCADA
RS485Barramento físico de comunicação serial, meio utilizado pelo Modbus RTU
ANSI 32Função de proteção direcional de potência — detecta e bloqueia fluxo reverso
BTBaixa Tensão
MTMédia Tensão
SCADASupervisory Control and Data Acquisition — sistema de supervisão e controle
BESSBattery Energy Storage System — sistema de armazenamento de energia por baterias
PIControlador Proporcional-Integral — algoritmo de controle em malha fechada
FPFator de Potência — relação entre potência ativa e potência aparente
ACLAmbiente de Contratação Livre — Mercado Livre de Energia
APEAutoprodução de Energia
CCEECâmara de Comercialização de Energia Elétrica
GDGeração Distribuída

Este é o segundo artigo de uma série de três sobre controle de exportação e controle inteligente da geração distribuída. Leia o primeiro artigo: Grid Zero: Guia Completo — Parte 1. O terceiro artigo abordará a regulamentação, homologação e comissionamento de sistemas Grid Zero no Brasil.


HACON — Hoeschl Automação e Tecnologia Controladores de exportação zero multimarca para usinas solares de geração distribuída, em baixa e média tensão. hacon.tech · WhatsApp · @haconzerogrid

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